O Brasil no Circuito das Megaexposições

 

Por: Graziela Naclério Forte

Megaexposições no BrasilMegaexposições no Brasil

 

Quando falamos em arte no Brasil logo imaginamos eventos direcionados a um público restrito, normalmente proveniente dos setores da população com maior poder aquisitivo e elevado nível educacional.

Então como é possível explicar as megaexposições, que iniciaram na década de 1990 e permanecem até hoje? Por que elas atraem tanta gente? O público é realmente significativo ou é só uma impressão equivocada? Qual a origem social dos visitantes? Quais são as instituições museológicas envolvidas? Quem são os financiadores? Qual o objetivo dos patrocinadores de eventos deste porte? Para responder a todas estas questões primeiro é preciso diferenciar uma exposição convencional de uma megaexposição.

Enquanto as exposições convencionais são produzidas por curadores nacionais, apresentadas em museus e outros equipamentos, na maior parte das vezes, de uma única grande cidade brasileira e recebem um número limitado de visitantes, as megaexposições cumprem uma itinerância por diferentes cidades e até mesmo países. Com curadores internacionais especialistas no tema da mostra, valem-se dos acervos de museus estrangeiros e quando chegam ao Brasil são apresentadas em institutos ou centros culturais. Estes locais têm espaços expositivos grandes e bem sinalizados, que permitem a circulação de muita gente. Poucas têm sido realizadas em museus, possivelmente por que não se encaixam aos objetivos. Ficam em cartaz por aproximadamente 3 meses em cada uma das localidades que percorrem, geralmente São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e algumas poucas vão à Belo Horizonte. A passagem por mais de uma grande metrópole funciona como estratégia para que o custo do seguro e empréstimo das obras seja diluído entre os locais. Contam com divulgação maciça pela televisão e mídias impressas, além das redes sociais. Conseguem apoios e parcerias entre instituições museológicas do exterior e empresas nacionais privadas ou entidades governamentais, que se utilizam muitas vezes das leis de incentivos fiscais para a captação dos recursos. Embora o custo de produção seja alto, a entrada é franca na maioria dos casos porque nossos “novos mecenas” estão interessados em associar a imagem das empresas patrocinadoras a fatores culturais, vistos como positivos.

As mostras são sempre muito bem cuidadas, apresentando pesquisa que relaciona a obra dos principais artistas e suas influências, com outros nomes menos conhecidos, porém tudo bem contextualizado. E desta maneira conseguem aprofundar a análise e a informação disponível. Ademais têm caráter didático e abordagens contemporâneas. Assim, a produção das megaexposições representa uma mudança em relação à produção das exposições convencionais.

E é por tudo isso que elas atraem muita gente, fazendo com que a velha organização em fila, para adentrar o espaço, tenha se tornado uma tortura, precisando ser rapidamente substituída pelo agendamento online.

No ano de 2015, o público compareceu a mostras individuais de artistas consagrados como os surrealistas espanhóis Salvador Dali e Joan Miró ou exposições coletivas que resgataram os trabalhos de artistas plásticos que fizeram parte dos mais diversos movimentos do século XX, como impressionismo e expressionismo. Também houve a incidência de exposições de obras de artistas estrangeiros contemporâneos como a australiana Patrícia Piccinini e a sérvia Marina Abramovic, até então pouco conhecidas por aqui, mas que agradaram, respectivamente, devido ao (hiper)realismo ou pela interatividade com um público variado e de diferentes faixas etárias, inclusive crianças.

A megaexposição de Patrícia Piccinini, apresentada inicialmente na unidade do CCBB da capital paulista e depois em Brasília era formada por esculturas (sur)realistas de seres totalmente desconhecidos, porém afetuosos e que guardavam fortes semelhanças com as obras do também australiano Ron Mueck, que havia passado pelo Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e pela Pinacoteca do Estado de São Paulo, em 2014. Já Marina Abramovic trouxe no início de 2015 suas performances e instalações que mexeram com o público que compareceu ao SESC Fábrica Pompeia, em São Paulo.

Grandes mostras de artistas latino-americanos praticamente não ocorreram, a única exceção foi a exposição das obras da pintora mexicana Frida Kahlo e demais artistas surrealistas, no Instituto Tomie Ohtake. E dentre as grandes mostras de artistas ou de temática nacional estava o Castelo Rá-Tim-Bum, que reproduziu os cenários e personagens do programa infantil.

O Centro Cultural Banco do Brasil com suas várias unidades espalhadas pelo país foi a instituição campeã em receber megaexposições, em 2015. A mostra Picasso e a Modernidade Espanhola, que já havia passado pela Fondazione Palazzo Strozzi, em Florença, na Itália foi apresentada primeiro em São Paulo, seguindo logo depois para o CCBB do Rio de Janeiro com cerca de 90 obras pertencentes à coleção do Museu Nacional de Arte Rainha Sofia, da Espanha, a qual fez referência ao percurso do pintor espanhol até chegar à realização da obra Guernica, além de sua relação com mestres da arte moderna como Juan Gris, Joan Miró, Salvador Dalí, Dominguez Tápies, dentre outros. A curadoria levou a assinatura de Eugenio Carmona, professor de História da Arte da Universidade de Málaga e patrono do Museu Nacional de Arte Rainha Sofia.

Kandinsky: Tudo Começa num Ponto passou pelo CCBB de Brasília, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo. Com mais de 150 obras e principais influências, em sua maioria trabalhos pertencentes à coleção do Museu Estatal Russo de São Petersburgo. Havia ainda exemplares originários de outras sete instituições russas, além de coleções pertencentes à Alemanha, Áustria, Inglaterra e França. A curadoria ficou sob a responsabilidade dos russos Evgenia Petrova e Joseph Kiblitsky. Ambos contaram com o apoio do Banco Votorantim e a mostra recebeu mais de 1 milhão de visitantes.

Se o CCBB, com suas diversas unidades espalhadas pelo país, tem sido o campeão das megaexposições, o Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo pode ser considerado o vice. Passaram pela instituição as já citadas mostras de Salvador Dali, Joan Miró e Frida Khalo.

Não há dúvidas de que o número de visitantes vem se mostrando bastante expressivo. A mostra de Salvador Dali atraiu 538.000 expectadores e Joan Miró contou com um público de 398.000 visitantes. A exposição de Frida Kahlo e demais mulheres artistas surrealistas do México, que permaneceu até janeiro de 2016 na capital paulista, seguiu para a Caixa Cultural do Rio de Janeiro e de Brasília, trilhando o mesmo caminho das mostras anteriores, com grande repercussão na mídia e nas redes sociais, contando com um público significativo.

Podemos ter uma noção melhor destes números quando os comparamos com os dados do relatório anual de 2014 do Art Newspaper, de Londres: das 20 exposições mais visitadas em todo o mundo, o Brasil ocupou sete posições. Ou seja, no grupo das 10 maiores mostras contemporâneas, seis delas aconteceram em nosso país. A mais visitada foi a de Milton Machado no CCBB do Rio de Janeiro (9.470 visitantes por dia ou 447.799 no total); em segundo lugar Yayoi Kusama no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo (8.936 visitantes por dia ou 522.136 no total); seguida pela de Yayoi Kusama no CCBB, no Rio de Janeiro (8.702 visitantes por dia ou 754.565 no total); no quarto lugar Yayoi Kusama no CCBB de Brasília (7.957 visitantes por dia ou 471.730 no total); em quinto lugar Tino Sehgal, no CCBB do Rio de Janeiro (7.239 visitantes por dia ou 255.427 no total); e em décimo lugar Ron Mueck no MAM do Rio de Janeiro (4.865 visitantes por dia ou 298.848 no total).

O mesmo fenômeno se deu com exposições de fotografias. A mais visitada no mundo, em 2014 foi “Gênesis” de Sebastião Salgado, que aconteceu no CCBB de Brasília, entre agosto e setembro e contou com 5.306 visitantes-dia, totalizando 223.618 expectadores no período.

De fato, o público das megaexposições apresentadas no Brasil é bastante significativo. Na grande maioria são estudantes, professores, artistas, profissionais liberais e demais pessoas ligadas às áreas de comunicação, arte e cultura. E o interesse não se deve a um único fator, mas justamente a uma combinação: ineditismo, qualidade do acervo e curadoria bem cuidada.

Para o ano de 2016, foram programadas novas mostras de peso. Pelo Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo já passou a mostra de Mondrian e o movimento de Stijl (O Estilo), com obras do acervo do Museu Municipal de Haia, na Holanda, a qual deverá seguir para os espaços de Brasília, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. O Museu da Imagem e do Som, de São Paulo recebeu a exposição dedicada aos personagens criados pelo cineasta Tim Burton, que seguiu para Belo Horizonte e na sequência irá para Brasília e Rio de Janeiro.

Acaba de ser aberta a mostra dos artistas pós-impressionistas, no CCBB da capital paulista, em parceria com o Museu d´Orsay, de Paris. No CCBB carioca é esperada uma grande instalação do artista alemão Alsem Kiefer. Para as unidades de São Paulo e Brasília é aguardada a maior retrospectiva do pintor Cícero Dias. Frida Khalo já tem nova exposição agendada em São Paulo entre os meses de outubro e dezembro, no Museu da Imagem e do Som. Ela proporcionará um olhar íntimo e emocional da vida da artista plástica mexicana, por meio de uma coleção de fotos raras. As imagens foram descobertas após 50 anos trancadas num banheiro da Casa Azul, na cidade do México. E no fim do mês de maio, o Instituto Tomie Ohtake recebe a mostra Picasso: mão erudita, olho selvagem, com curadoria de Emilia Philippot, do Musée National Picasso-Paris.

De acordo com Silas Marti, em artigo publicado no dia 25 de março de 2015, na Ilustrada da Folha de São Paulo, pelo menos três mostras já foram canceladas ou adiadas: a retrospectiva do norte-americano Edward Hopper, a de obras da coleção do Louvre, em Paris e a exposição de fósseis do Museu de História Natural de Nova Iorque, devido ao alto preço do dólar em relação ao real, o que encareceu as produções.

Embora as megaexposições continuem acontecendo, já é possível notar uma certa desaceleração. Poucas foram realizadas ou até mesmo anunciadas nos quatro primeiros meses do ano de 2016. Esperamos que o calendário das grandes mostras em nosso país não seja alterado e que possamos continuar recebendo tão belas obras.

 

Graziela Naclério Forte é professora-pesquisadora de História da Arte Brasileira, pós-doutoranda pela Unesp-Marília, doutora pela Unicamp e mestre pela USP. Autora dos livros Diversão e Arte no Clube de Artistas Modernos e Carlos Prado: Trajetória de um Modernista Aristocrata (Bookess, 2014) e diversos artigos voltados aos temas relativos a sociabilidades artísticas, arte e política.

 

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